dubito ergo sum
 
Caderno de ficções

 

 

TEXTO

Afonso Henriques Neto

 

 

O texto, escura escama, pesadelo de eternidade,

máscara densa do universo vomitando.

O texto, mas não a energia que o pensou,

interrogando a simultaneidade absoluta.

Há uma esperança nas ruas, nas pedras, no acaso

de tudo, uma esperança, uma forma suspensa

entre o aparente e a essência, entre o que vemos

e a substância, uma esperança, uma certeza talvez

de que o rio não se dissolva no mar, de que

o ínfimo, o precário, a voz, a sombra,

o estalar das carnes na explosão

não se dispersem no todo, impensável medusa da inexistência.

Há uma luz qualquer sonhando integração, o suposto

destino dos ventos, das energias globais, a suposta

sabedoria com que o homem fecundou a crosta

envenenada do planeta, há uma luz qualquer

ensaiando águas pensadas no eterno esvair-se,

abstrato expansionário, há uns olhos além

da frágil realidade, da terrível matança, da

cruel carnificina entre seres pestilentos aquém

da fronteira do sonho, um texto além do texto,

uma esperança talvez, enquanto somos e nos cumprimos,

enquanto somos e nos oxidamos, enquanto

somos e prosseguimos.