DUBITO ERGO SUM

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A FICÇÃO DA CIÊNCIA

Gustavo Bernardo

 

Publicado em O Globo: Prosa On Line, em 20/01/2007

 

 

O matemático Bertrand Russell distinguia: ciência é o que sabemos, filosofia o que não sabemos. O filósofo busca a verdade, mas não pode encontrá-la, senão, a perde para o cientista. A distinção é esquemática (o bom cientista tem momentos de filósofo, o bom filósofo pesquisa como um cientista) mas produtiva, porque mostra a diferença de horizontes. A filosofia, por sua vez, é prima da ficção. Ambas têm dúvidas sérias a respeito de si mesmas e da própria realidade. Uma obra de ficção é uma obra de dúvida e suspeita quanto à realidade que tematiza. Como não se conforma com a realidade, o escritor inventa outra. Ele não mostra a realidade como ela é, mostra como poderia ser se... Força o leitor, desse modo, a confrontar o que vive e o que lê.

Mas se o cientista às vezes é um filósofo, ele pode se aventurar na ficção. É o que faz o físico brasileiro Marcelo Gleiser, no romance A harmonia do mundo: reconstrói a história do astrônomo Johannes Kepler, que viveu a passagem do século XVI para o XVII e descreveu o movimento dos planetas. A idéia do romance já é importante como divulgação da história da ciência, porque fecha o foco no momento em que a ciência começava a se separar, com sofrimento, da religião. O cientista era forçado a pensar contra a filosofia dominante no seu tempo, a teologia, o que envolvia riscos consideráveis para a saúde.

A ciência recuperava o que fundara a própria filosofia, a saber: o ceticismo. Como diria Carl Sagan, a ciência combina ceticismo e espanto, porque só há espanto quando se protege a dúvida. Se o cientista não mantém seu espanto vivo, torna-se um tecnocrata que ajuda a construir a bomba sem se perguntar o que faz. Entretanto, isso tem um preço. À época de Kepler, o preço era alto. O astrônomo luterano que queria ter sido teólogo tentou sempre o impossível, a saber, conciliar sua crença com sua ciência, em meio a guerras religiosas terríveis e a condições sociais não menos piores. Nunca desistiu do seu objetivo: decifrar nada menos do que a mente de Deus, pela compreensão da lógica do universo. Trata-se de um belo personagem para um romance histórico; resta saber se o livro do nosso físico funciona como um romance. 

Com o perdão da ênfase: funciona muitíssimo bem. O drama dos personagens emociona tanto quanto os dramas do pensamento humano. É um romance sobre um homem que representa o melhor da espécie humana, capaz tanto de gestos sublimes e reflexões geniais quanto de ações abjetas e preconceitos estúpidos (com freqüência, em nome de Deus). A estrutura narrativa parte do conflito entre o mentor de Kepler, Michael Maestlin, e seu discípulo. É Maestlin quem se pergunta, no começo: “por que a fé transforma homens em monstros?”.

Como de praxe, a história começa pelo final, contada pelo mestre no momento em que o seu aluno morria algures. Através de cartas antigas e de um diário de Kepler, o mestre reconstitui, com espanto e admiração, mas também com dor e arrependimento por tê-lo abandonado, toda a trajetória do discípulo: de professor de matemática em uma pequena província a matemático imperial em Praga, passando pelos seus casamentos e muitos filhos.

Gleiser teve o cuidado de reconstituir os eventos históricos estudando manuscritos originais e seguindo os passos de Kepler pela Europa. O físico agora romancista, ele mesmo um “judeu sem Deus” (como Freud e Flusser, para dar exemplos que me são caros), reviveu no texto a tolerância de Kepler, cuja admiração pela fé humana não distinguia religiões. Entre os muitos momentos comoventes, há um que rompe a preocupação realista e promove o encontro mágico, embora fugaz, do astrônomo luterano com um Golem judaico, no meio do gueto de Praga. A cena, que se dá bem no meio do livro, representa à perfeição os conflitos e as belezas do romance – como o leitor entenderá ao final.