DUBITO ERGO SUM

 Miguel de Cervantes

MIGUEL DE CERVANTES:
CAVALEIRO DA LITERATURA

Mário Amora Ramos

 

Curiosamente, antes mesmo de aprender a ler, eu já conhecia Dom Quixote. Meu pai tinha em casa, sobre sua escrivaninha, duas estatuetas, representando Dom Quixote e Sancho Pança, que serviam para manter na vertical os livros de consulta mais freqüentes. Tive desde cedo minha curiosidade atraída por aqueles dois personagens tão diferentes entre si: um, magro, alto e a cavalo; e o outro gordo, baixo e montado num jumento. Dom Quixote é um homem puro, que põe seus ideais acima de suas conveniências pessoais, em defesa de causas que considera justas. Felizmente, ao longo do caminho, o Quixote idealista conta com Sancho Pança, alguém sensato e que o protege dos perigos da caminhada. Nós somos um pouco de cada um. Eles representam a ficção e a realidade. Literatura e vida. Dom Quixote é um fidalgo que teve sua vida transformada pelos livros sobre a cavalaria andante. Eu, como um novo Quixote, tive minha vida transformada por sua leitura. Só que, em lugar de tomar armas e sair pelo mundo em busca de aventuras, preferi reunir minhas impressões no livro Dom Quixote: Quatro Séculos de Modernidade, numa homenagem singela a Miguel de Cervantes. 

Neste ano de 2005, os países de língua espanhola em todo o mundo comemoram o IV Centenário da publicação da primeira parte de Dom Quixote de La Mancha, obra-prima da literatura universal, de autoria do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547- 1616). Este livro foi escrito em duas partes, publicadas em 1605 e 1615, quando Portugal estava sob domínio espanhol, entre 1580 e 1640. De uma certa forma, ele ajuda a compreender uma parte de nossa História. 

Miguel de Cervantes nasceu em Alcalá de Henares, perto de Madri, na Espanha, provavelmente em 29 de setembro de 1547, dia consagrado aos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Não era costume na época manter o registro das datas de nascimento. Sabe-se apenas que foi batizado no domingo, dia 9 de outubro de 1547, na igreja de Santa Maria Maior, também em Alcalá de Henares. Seu registro de batismo (no alto da página 192 do primeiro livro de batismos da paróquia), felizmente preservado, registra simplesmente “Miguel, filho de Rodrigo de Cervantes e sua mulher, dona Leonor”. O sobrenome Saavedra foi um acréscimo posterior. 

A descoberta de sua certidão de batismo, no século XVIII, pôs fim a uma disputa entre diversas cidades espanholas que reivindicavam Suposto retrato de Cervantes a glória de ter visto Cervantes nascer. Curiosamente, o autor não revelou o local de nascimento de Dom Quixote: “(...) para deixar que todas as vilas e lugares de La Mancha contendessem entre si, disputando a glória de o ter por seu filho, como contenderam por Homero as sete cidades da Grécia” (Saavedra, 1983, livro 2, cap. 74). 

Alcalá de Henares tinha uma universidade - de importância menor do que a de Salamanca, o grande centro intelectual da Espanha. Seu avô era um magistrado, Juan de Cervantes. Seu pai, Rodrigo, vivia de aplicar sangrias, fazer pequenas cirurgias e atuar como dentista. Não se sabe se Cervantes cursou uma universidade. 

Cervantes era gago, como ele próprio esclarece no prólogo de Novelas Exemplares:  

Enfim, já que o tempo se foi e eu passei em branca nuvem, serei obrigado a valer-me de minha lábia, que, embora gaguejante de natureza, não o será para falar certas verdades que, embora ditas por metáforas, possam ser entendidas claramente (Saavedra, 1971).  

Em 1569 viajou à Itália como camareiro do futuro cardeal Giulio Acquaviva, que estivera em Madri para levar as condolências do Papa Pio V pela morte de dom Carlos, filho de Felipe II. Fora recomendado por seu mestre, Lopez de Hoyos, como servidor leal e inteligente.Na Itália aprendeu o idioma e familiarizou-se com a poesia de Ludovico Ariosto (1474-1553), autor de Orlando Furioso - seu tema principal são as aventuras dos lendários paladinos de Carlos Magno, cujo sobrinho, Orlando, figura como herói, enamorado por Angélica, a bela. É com um verso do canto XXX, de Orlando Furioso, que Cervantes encerra o primeiro livro de Dom Quixote, citando no original italiano: Forse altri canterà con miglior plectro - Talvez outro cantará com melhor plectro - (Saavedra, 1983, livro 1, cap. 52). Vale lembrar que plectro vem do grego plektron, que é uma pequena peça para fazer soar as cordas de um instrumento. Atentes ao sentido figurado, teríamos como tradução: Talvez outro cantará com melhor inspiração poética.  

O soldado e o cativeiro  

Cansado da vida de camareiro, Cervantes engajou-se no exército em 1570 para lutar contra os turcos, que ameaçavam a Europa ocidental. Sob o comando de Dom João de Áustria (1547-1578), irmão de Felipe II, reuniu-se uma esquadra contra os turcos com representantes da república de Veneza, do Estado Pontifício e da Espanha. 

Na batalha naval de Lepanto, na costa da Grécia, em 7 de outubro de 1571, a bordo da galera Marquesa, Cervantes foi ferido por tiros de arcabuz no peito e na mão esquerda, que ficou inutilizada. Por esta razão, o autor é também conhecido como El Manco de Lepanto. No prólogo do segundo livro de Dom Quixote, o autor se refere ao episódio:  

Se as minhas feridas não resplandecem aos olhos de quem as mira, são estimadas, pelo menos, por aqueles que sabem onde se ganharam; que o soldado melhor parece morto na batalha do que livre na fuga: e tanto sinto isto que digo que, se agora me propusessem e facilitassem um impossível, antes quisera ter estado naquela peleja prodigiosa do que são das minhas feridas sem lá me ter achado (Saavedra, 1983).  

Cervantes permaneceu no exército sob o comando de Dom João de Áustria e participou ainda de diversas campanhas militares. Em 1575, decidiu retornar à Espanha. Seu navio, a galera El Sol, foi a pique e Cervantes foi capturado por piratas, que o venderam como escravo na Argélia. Viveu cativo durante cinco anos, de 1575 a 1580. Seu irmão mais novo, Rodrigo, que o acompanhava, foi libertado antes, em 1577, pelos padres das Mercês, que o resgataram por trezentos escudos. A primazia do resgate caberia a Miguel de Cervantes, por ser o irmão mais velho, mas seu amo pedia por ele um valor mais elevado. 

Miguel tentou escapar por diversas vezes, assumindo sozinho a culpa por fugas frustradas, até que sua família e uma missão católica de Frei Juan Gil, da Redenção de Cativos, pagaram seu resgate. A história do cativo Rui Pérez de Viedma (Saavedra, 1983, livro 1, cap. 39 a 41) é bem ilustrativa da experiência de Cervantes no cativeiro. Neste trecho Cervantes provavelmente refere-se a si mesmo:  

Só lhe caiu em graça um soldado espanhol chamado fulano de tal Saavedra (...). Se o tempo me permitisse, eu contaria algumas das aventuras deste soldado, com as quais vos entreteria e vos faria admirar muito mais do que com a narração da minha história (Saavedra, 1983, livro 1, cap. 40).  

Na Espanha, não o promoveram nem lhe deram medalhas. Para subsistir, engajou-se, em 1581, nas tropas de Felipe II. Cervantes deixou definitivamente a vida militar em 1584. 

O escritor e o cárcere  

Nos anos seguintes a 1584, Cervantes escreveu muitas peças para o teatro, mas não conseguiu competir com seu bem-sucedido rival Lope de Vega (1562-1635), a quem ironiza em muitas passagens de Dom Quixote. O primeiro trabalho longo de Cervantes foi A Galatéia, um romance pastoril, com setenta poemas intercalados, que publicou em Alcalá de Henares em 1585. O romance pastoril surgiu numa época em que os romances de cavalaria entravam em decadência. Os idílios entre os pastores e a paz dos campos tomaram o lugar das batalhas medievais e do cavaleiro que desafia riscos e perigos para conquistar sua amada. 

Em dezembro de 1584, levando consigo uma filha ilegítima, Isabel de Saavedra, que lhe dera a atriz Ana de Rojas, Cervantes casou-se com Catalina de Salazar y Palacios, de dezenove anos. Sempre em meio a dificuldades financeiras, integrou-se, em 1587, ao esforço de construção da Invencível Armada do rei Felipe II, completada em maio de 1588, em Lisboa, na foz do Tejo, então sob domí nio espanhol. A vitória naval dos ingleses, neste mesmo ano, foi um sério golpe no prestígio da Espanha, na época o país mais poderoso do mundo. 

Na função antipática de comissário de abastecimento da Armada, Cervantes viajou por toda a Espanha arrecadando alimentos. Nesse trabalho encontrou os tipos mais variados de pessoas e ouviu relatos os mais curiosos, que mais tarde lhe seriam úteis para a composição de seus personagens. 

Com a derrota da Armada, em agosto de 1588, e a posterior extinção de seu cargo, Cervantes escreveu ao Rei Felipe II, em 1590, pedindo um emprego na América, “de los tres o cuatro que al presente están vacantes” (dos três ou quatro que no momento estão vagos), mas não lhe satisfizeram o pedido. Em resposta veio uma recomendação: “Busque por acá en que se le haga merced” (Procure aqui mesmo algo que lhe traga benefício). Em 1594, o nomearam coletor de impostos. Nessa função visitou muitas partes da Espanha e adquiriu um profundo conhecimento da natureza humana que o capacitou a refletir, no Dom Quixote e em outras obras, toda sua experiência de vida. 

Com a quebra do banco onde depositou os impostos recolhidos, Cervantes foi encarcerado em Sevilha durante uns três meses, em 1597. No prólogo do primeiro livro de Dom Quixote, Cervantes se refere ao livro como  

gerado em um cárcere, onde toda a incomodidade tem seu assento, e onde todo o triste ruído faz a sua habitação (Saavedra, 1983).  

A publicação de Dom Quixote e outros livros  

A publicação do primeiro livro de Dom Quixote, em 1605, tornou-o famoso. Durante oito anos Cervantes não publicou nenhuma outra obra. 

Envelhecido e solitário, ele se tornou incrivelmente ativo em seus três últimos anos de vida. Novelas Exemplares, uma coleção de doze contos, apareceu em 1613 e figura como seu trabalho mais importante depois de Dom Quixote. No prólogo das Novelas Exemplares, o autor assim justifica o título dado:  

Dei-lhes o nome de Exemplares e, se observares bem, não verás nenhuma da qual não se possa tirar algum exemplo proveitoso e, se não fosse prolongar dema-siadamente este assunto, talvez eu te mostrasse o saboroso e honesto fruto que se pode obter tanto de todas juntas como de cada uma em separado (Saavedra, 1971).  

Em 1614, Cervantes publicou Viagem ao Parnaso, sua obra poética mais extensa. Neste mesmo ano, um certo Alonso Fernández de Avellaneda, cuja verdadeira identidade é discutida até hoje, lançou uma falsa continuação do primeiro livro sobre Dom Quixote. Cervantes o ridicularizou no segundo livro de Dom Quixote, que publicou em 1615. Já no prólogo, o autor se mostra magoado com o suposto Avellaneda:  

O que não pude deixar de sentir foi que me apodasse de manco e de velho, como se estivesse na minha mão demorar o tempo, que parasse para mim, ou como se eu tivesse saído manco de alguma rixa de taberna, e não do mais nobre feito que viram os séculos passados e presentes, e esperam ver os vindouros (Saavedra, 1983).  

Ainda em 1615, publicou Oito Comédias e Oito Entremezes Novos, uma coleção de peças. Os entremezes (peças curtas destinadas a serem encenadas nos intervalos das peças principais) situam-se entre suas melhores obras, sendo consideradas superiores às suas peças mais longas. 

Em 1616, ingressou na Ordem Terceira de São Francisco. Morreu no mesmo ano, aos 68 anos, em Madri, na sexta-feira de 22 de abril. Foi sepultado no dia seguinte, 23 de abril, dia de São Jorge, num túmulo humilde e sem lápide, que hoje não se sabe mais onde está. Shakespeare (1564-1616) faleceu na Inglaterra no dia 23 de abril e preservou-se a tradição de que teriam falecido no mesmo dia e ano, mas a diferença de calendário entre os dois países faz com que as datas não coincidam. 

A última obra de Cervantes, Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda, é um romance de aventura romântica, publicado postumamente em 1617. Um dos pontos marcantes do livro é sua comovente introdução, de 19 de abril, poucos dias antes de sua morte. 

Cervantes foi o maior expoente da chamada Idade de Ouro da Espanha, entre os séculos XVI e XVII. Hoje ele empresta seu nome ao Prêmio Cervantes, o prêmio literário mais importante de seu país, concedido anualmente. Com igual justiça, o órgão responsável pela difusão da língua espanhola no mundo chama-se Instituto Cervantes.  

 

 

Referências bibliográficas

 RAMOS, M. A. Dom Quixote: quatro séculos de modernidade. Osasco, SP: Novo Século, 2005. 280p.

 SAAVEDRA, M. de C. Dom Quixote de La Mancha. Biblioteca de Autores Universais. Trad. dos Viscondes de Castilho e Azevedo. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983. 1149p. 

________. Novelas Exemplares. Trad. de Darly Nicolana Scornnaienchi. 2. ed. São Paulo, Cultural e Industrial, 1971. 255p.  

 

* Artigo publicado na Presente! revista de educação (publicação CEAP) - ANO XIII - n. 50 - Salvador, set/nov 2005. pg. 58-62. Mário Amora Ramos é autor de Dom Quixote: Quatro Séculos de Modernidade (Novo Século Editora, 2005). E-mail: marioamora@uol.com.br .