DUBITO ERGO SUM

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O ESTATUTO DA TRAIÇÃO

Gustavo Bernardo

 

 

“Mundus vult decipi,

decipiatur ergo”

 

 

Desejo formular o estatuto da traição (e, por conseqüência, o estatuto da ilusão) a partir da literatura, por meio de dois textos muito semelhantes, separados por alguns séculos. Trata-se da novela del curioso impertinente (contada dentro do primeiro volume do romance Dom Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, publicado em 1605) e da peça de teatro A mulher sem pecado (primeira obra de Nelson Rodrigues, representada em 1942).

Resumo o enredo comum: o marido desconfia da fidelidade da mulher; ou procura pô-la à prova com a ajuda de um amigo que vai seduzi-la, caso do curioso impertinente de Cervantes, ou manda segui-la pelo motorista, perseguindo-a com acusações constantes de traição, caso da peça de Nelson; a mulher, que era fiel, não resiste quer à prova quer às constantes acusações, e acaba por trair de fato o marido — ou com o amigo, ou com o motorista; o marido morre de desgosto, ou se mata, consciente de ter sido, simultaneamente, objeto e agente da traição sofrida.

A hipótese, subjacente a semelhante intriga: que a traição não apenas pertence ao estatuto da ilusão, como o esclarece. A epígrafe escolhida é um adágio latino que fala disso: mundus vult decipi, decipiatur ergo — “o mundo quer ser iludido, logo, que o seja”. O adágio pode ser lido de modo exclusivamente cínico, se nos pensarmos fora deste mundo, capacitados a aproveitar a necessidade de se iludir do mundo (do outro) em nosso benefício imediato. Todavia, não nos encontramos fora deste mundo; logo, também queremos ser enganados. Dessa maneira, prefiro perceber o adágio não como cínico, mas antes, como irônico.

Precisaríamos ser enganados pelos sublimes traidores do mundo (nossos artistas, ou nossos amantes), para que eles possam puxar sob os nossos pés o tapete da presunção. O mundo quer ser enganado também porque precisa ser enganado, isto é, porque precisa descongelar os seus clichês convenientes.

Exigências como a da fidelidade parecem implicar sofrimento; sofrimento que se sente, sofrimento que se impinge. Por quê? Porque se pressupõe, para qualquer fidelidade, causa sui, causa de si mesmo. A exigência obriga fidelidade àquele alguém porque ele é aquele que faz a exigência. Mas quem é, qual a real identidade deste alguém? Infelizmente, é isto que não se sabe: “a causa da fidelidade faz parte dos dados absolutos do problema que a fidelidade deve, justamente, resolver”.[ii]

Exige-se fidelidade a um ser, ou a uma causa — que, entretanto, se mostram invisíveis e inapreensíveis (quer dizer, não se mostram). A fidelidade erige-se como exigência, portanto, para melhor emprestar invisibilidade àquele do qual parte a exigência; para melhor não pôr em questão precisamente aquilo que a fidelidade, por definição, põe em questão: fidelidade a quem, e por quê.

A exigência da fidelidade pressupõe determinado indivíduo indivisível, inteiro e coerente, definido em si e por si mesmo, que então poderia do outro exigir a fidelidade, vale dizer, a inteiridade. Eis, entretanto, o que não estaria demonstrado, antes, invisibilizado.

A maneira usual de invisibilizar o agente da exigência é diluí-lo, indivíduo, na abstração da espécie (“porque eu sou homem”) ou na abstração de um compromisso ritual. A invisibilização permite a auto-referência viciosa (seja fiel a mim, porque eu sou o eu). Lá, onde falte o fundamento, o homem invisível apela para o narcisismo mais puro, julgando-se autofundamentado e auto-referido.

A fidelidade exige do fiel provas inequívocas, se a traição, mais do que à espreita, encontra-se pressuposta. “Jura dizer toda a verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade?” Naturalmente que sim; nós juramos. “Conte-me tudo, não me esconda nada”, ordenam os policiais bem como os psicanalistas, os pedagogos, os médicos, os pais e os namorados.

Eis o Mal; o Mal seria, finalmente, “o desejo de Tudo-dizer”, logo transtornado na obrigação de dizer tudo. Ou, nos termos em que se expressa Pessoti: “Nenhum amor sobrevive à palavra, mas nenhum poder prescinde dela.” [iii] Vale dizer, nenhum amor tem condições de sobreviver à palavra completa, ao “conte-me tudo não me esconda nada”, à insistência em escavar todas as “verdades”, em perguntar diariamente “mas o que é que você está pensando agora”, ou, “o que é que você pensou naquele momento”. Porque essa insistência não é amor, ou pelo menos não é só amor, se vem melada de um certo tipo de desespero que se traveste de suficiência, para melhor esconder a necessidade de controle, isto é, do poder — que não pode, este sim, prescindir da palavra exposta (como uma fratura, ou uma confissão).

As palavras separam. Por isto, nenhum poder pode prescindir das palavras, se vive de separar, de enquadrar e de excluir. Pela razão inversa, nenhum amor sobreviveria às palavras que se pretendem plenas, completas — e que se deformam, ato contínuo, tornando-se fraturadas, excludentes.

O segredo protege a ilusão; contar o segredo é, propriamente, a traição. A verdade do erotismo: suspender os véus, mas sem retirá-los. O strip tease bem feito é erótico; a nudez, ainda que bela, nem sempre. O strip tease bem feito só pode sê-lo a media luz (logo, os filmes pornográficos, com iluminação chapada e frontal, não podem ser eróticos). A verdade do erotismo, então: suspender a lei, mas sem negá-la: deixá-la, junto com os véus, sobre a pele do gesto.

Na essência, todo amor talvez seja narcísico, quer dizer, auto-referido. Daí proviriam tantas desilusões, se previamente ilusões foram traçadas sobre o corpo alheio. Se isso não é absurdo, então cada ato amoroso comportaria necessariamente uma medida de traição, como Bataille já disse de outra forma: “a verdade do erotismo é traição”:

El amor paradigmático, la clase de amor que usurpa y monopoliza el término, es el amor de los amantes. El peso de la sexualidad, sin embargo, contribuye poco a singularizar al otro: “hacer el amor” suele tener mucho de servicio público... Por medio del erotismo nos rebelamos contra las exigencias generalizadoras de la especie, cuyos fines descartan fatídicamente nuestra individualidad tras haberla utilizado del modo más “personal” posible. A poco que se mire, hay mucho más contenido ético en el erotismo que en la procreación. En el amor de los amantes se compromete la desconcertante inocencia de los sentidos, pero trascendida — hecha libre y por tanto culpable — por la vocación de alcanzar una experiencia límite, algo que supere con su intensidad la instrumentalidad específica y nos revele lo incomparable y singular en la efusión misma que anula la individualidad.[iv]

Amar implica admitir a singularidade. Conhecer igualmente implica admitir a singularidade. O que todos sabem, por definição, não pode ser de um; o que a um, de repente, é revelado, naquele exato instante é um saber único.

Em função desta fratura do saber e do tempo, o verbo “trair” comporta bela ambigüidade: é tanto infidelidade quanto revelação — quanto fidelidade à verdade que, todavia, ainda não se sabia. A frase “seu rubor traiu os seus sentimentos” significa, justamente, que ela os revelou, a si mesma como aos demais. [v]

Trair pode resultar do ser fiel: ao desejo. Ser fiel ao desejo, por sua vez, pode implicar trair alguém.  Então, o que fazer? A moral pode nos dizer? A ética pode nos orientar? Não. A reflexão ética é necessária, mas não suficiente. Pode dar-nos princípios gerais para orientar-nos nos casos particulares, mas não avaliza qualquer opção. A responsabilidade persiste solitária. Ainda que se queira, no horizonte, como social e universal, a ética é individual porque implica a escolha entre deveres morais conflitantes, ou seja, implica a solução, particular e provisória, do conflito. Logo, a ética é também o que não se sabe — ou melhor, a ética é a que não se pode dizer toda. “Se um homem pudesse escrever um livro sobre ética que fosse realmente um livro sobre ética, este livro, como uma explosão, aniquilaria todos os outros livros do mundo”, determinara Wittgenstein. [vi]

A ética, tal qual o bem, só podemos vê-la em lusco-fusco, como nos espelhos: em enigmas. A realidade moral é simbólica, simboliza sempre uma outra coisa — aponta para uma necessidade que não é, necessariamente, aquela que a moral explicita. Que necessidade é esta, eis o que se trai.

A questão (hamletiana) é: trair ou não trair; quando, e como. As respostas podem vir da existência concreta, do cotidiano mesmo, mas então se tornam vagas, plurais, e inteiramente dependentes dos menores detalhes e das menores relações do contexto em que se dêem imersas. Se é assim, o cotidiano revela-se a incômoda praça da responsabilidade. Não a responsabilidade genérica, que se possa definir, mas sim a cada vez uma responsabilidade única, afim à situação e à pessoa, que não se pode repetir. Logo, a incômoda praça da responsabilidade é a praça que, simultaneamente, se quer e se precisa gradear, para melhor controle — mas suas grades serão sempre muito largas.

Os media tentam estreitar as grades, procurando encontrar “falta de ética” aqui, ali, acolá. No entanto, a ética não é uma arma. A ética “serve unicamente para tentarmos melhorar a nós mesmos”, se “somos todos feitos artesanalmente, um a um, com amorosa diferença”.[vii] Assim, a quem ruge que “os políticos não têm o mínimo de ética”, poderíamos responder, ética e amavelmente: “que tal olhar o seu rabo primeiro?”

Talvez esta seja uma razoável definição de ética: a atitude que olha primeiro para si mesma, antes de julgar e condenar as palavras e os gestos dos outros. Antes mesmo de Freud, Nietzsche já punha em dúvida o caráter intencional das chamadas ações nobres: “corre a suspeita de que o valor decisivo de uma ação está justamente naquilo que nela é não-intencional, e que toda a sua intencionalidade, tudo o que dela pode ser visto, sabido, tornado consciente, pertence ainda à superfície, à sua pele — que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde”. [viii]

O que revela algo, mas, sobretudo, esconde? A traição revela um desejo a favor de si e, quiçá, de alguém, bem como uma desonestidade e desconsideração contra outrem — mas o que, sobretudo, esconde? Para responder, retornemos à epígrafe: “O mundo quer ser enganado — mundus vult decipi —, ou com o engano antes da razão, que é a poesia, ou com o engano depois dela, que é a religião” [ix] —, decipiatur ergo [x] —, “logo, que o seja”.

Recorde-se o provérbio inglês: “The treason is loved but the traitor is hated”. [xi] Chama-se a atenção para a ambigüidade central: a traição é amada (logo, pertinente) por quem trai, se lhe foi necessária, enquanto o traidor é detestado por quem foi traído precisamente por se haver precipitado uma necessidade — o que dói muito. O provérbio, paradoxal, lembra o axioma do físico Niels Bohr, que dizia existirem dois tipos de verdades: as verdades superficiais, cujos opostos são obviamente errados, e as verdades profundas, cujos opostos são tão certos quanto elas mesmas. [xii] Dizer, “a vida é breve”, é tão certo, enfim, quanto dizer: “a vida é longa”. O conceito vida permite-se estes dois atributos, em outra dimensão (das verdades superficiais) contraditórios. O conceito traição, pelo que estamos tentando demonstrar, igualmente. Vamos observá-lo na primeira peça de Nelson Rodrigues, A mulher sem pecado.

Olegário e Lídia são os personagens principais. Olegário perseguia um motivo para matar Lídia. Lídia parecia resistir heróica e desesperadamente à loucura de Olegário, até um ponto em que começa a desabar — até um ponto em que as suas palavras começam a desabar.

Cuidando de dona Aninha, espécie de doida pacífica e mãe de Olegário, que dá trabalho especialmente quando se recusa a comer, Lídia de repente passa a descontar na velha todo o seu desespero. Grita para a sogra (que não parece escutar ou entender) como não se passa um dia em que não deseje a morte do marido, em que não deseje vê-lo enterrado de smoking, sem sapatos e de meias pretas. Grita que sonha com ser seviciada num lugar deserto, que Umberto, o motorista, a chamou de cínica e ela gostou... — mas se aterroriza com o que está dizendo: “Não! Não! Minhas palavras estão loucas, minhas palavras enlouqueceram!”.  [xiii]

Olegário metera-se há sete meses numa cadeira de rodas, fingindo-se de paralítico, com o objetivo de testar a fidelidade da mulher, Lídia. Toda a ação gira em torno do ciúme doentio de Olegário, que põe seu motorista, Umberto, seguindo todos os passos da mulher para lhe contar depois o que ela fizera e quem olhara para ela, exigindo o máximo de detalhes. Quando ele finalmente se convence de que não é traído, que Lídia é a mulher mais fiel do mundo, descobre que ela acabara de fugir... com o motorista.

Desde as primeiras cenas, Olegário como que procura convencer Lídia de que ela ou já o estaria traindo ou queria trai-lo. “A vida da mulher honesta é tão vazia!”, afirma. Sem dúvida, ela no mínimo deveria estar desejando uma aventura na vida. E o que ele precisa, com desespero extremado, é saber a verdade — saber a verdade que, no entanto, acha que já sabe, embora não tenha certeza:

Quero dizer o seguinte: seus atos podem ser puríssimos. Mas seu pensamento nem sempre — seu pensamento, seu sonho. Quem é que vai moralizar o pensamento? O sonho? Você, talvez!  [xiv]

Sua preocupação com o controle é obsessiva; queria controlar o pensamento de Lídia. Como isso não é possível, vai transformando seu medo de ser traído em verdade. Produz a verdade que quer a todo custo “descobrir”, enxergar. Na maior parte da trama, as perspectivas, os modos de enxergar de Lídia e Olegário são muito diferentes, se não fosse este um dos motes  principais de toda a dramaturgia de Nelson Rodrigues: a tensão entre perspectivas radicalmente diversas. Essa tensão atinge seu ápice na passagem do primeiro para o segundo ato. No final do primeiro ato, Olegário recebe um telegrama, informando o acidente de alguém que terminara com as duas pernas esmagadas. Lídia pergunta quem, mas o marido valoriza e dramatiza a resposta, até gritar (enquanto, de acordo com a rubrica, o pano desceria lentamente) que “Foi ele! Ele, o seu amante! Ficou com as duas pernas esmagadas!...”. Lídia então cai de joelhos, aos pés de Olegário, chorando como uma alucinada.

No início do segundo ato, entretanto, Olegário grita a mesma coisa, mas Lídia recua assombrada, exclamando que não tem nem nunca teve amante. Aterrorizada, decide ir embora, sair da casa, quando ele cai em si e muda completamente de tom, pedindo que ela fique porque ele mentira, fora só uma brincadeira, uma experiência. Lídia, amargurada, pergunta-lhe se está satisfeito:

Não, nunca! Por que satisfeito? Esse teu amante não existe. Ainda assim, esmaguei-lhe as pernas! Exista ou não, está sem as pernas! [xv]

A diferença de perspectivas, na passagem de um ato para o outro, fica clara. No final do primeiro, Lídia reage como Olegário esperava, traindo-se e à sua traição pressuposta. Já no início do segundo ato, Lídia mostra que reagira como a Lídia de até então, revelando a armadilha de Olegário. Isso não é dito nos diálogos, mostrando-se somente nas rubricas. As ações, e não as palavras, apontam a diferença radical de perspectivas.

A despeito da reação dela, Olegário retoma o júbilo com sua “experiência”, dizendo-se insatisfeito mas mostrando-se, na verdade, satisfeito, feliz e feroz, por ter esmagado verbalmente as pernas daquele amante absolutamente imaginário.

Adiante, Lídia devolve a Olegário, com todas as letras, a responsabilidade por sua eventual, ou virtual, infidelidade. “Eu acho que você não quer é que eu seja fiel!”, afirma. Imediatamente a seguir, pergunta quem meteu na sua cabeça a idéia do pecado, e ela mesma responde: “É a sua idéia fixa!” Olegário, desesperado, concorda. “Claro! A única coisa que me interessa é ser ou não ser traído!”  [xvi]

Ao final do terceiro e último ato, Olegário se convence da fidelidade de Lídia e manda chamá-la, para mostrar que nunca foi paralítico. Mas a empregada lhe traz uma carta, um bilhete:

Parto com Umberto. Nunca mais voltarei. Não quero seu perdão. Adeus. Lídia. Nunca mais voltarei. Nunca mais...

Olegário alcançara o seu objetivo, que não se pode dizer inconsciente: saber a verdade que, de fato, sabia — que, de fato, construíra.

A história da mulher sem pecado e seu marido falsamente paralítico (embora de fato paralisado pela própria idéia fixa, pela própria verdade que quer saber) já aparecera muito antes. Vamos reencontrá-la junto com el ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, na novela del curioso impertinente, uma das muitas histórias que se contam dentro da história principal.

A história é contada pelo cura, numa estalagem. Durante praticamente todo o tempo em que é narrada, Dom Quixote dorme nos seus aposentos, sonhando com gigantes e princesas encantadas. Os personagens principais da história são Anselmo, Lotário (dois amigos muito amigos…) e Camila.

Anselmo se casa com Camila, donzela ilustre e formosa, e Lotário fica contente com a felicidade do amigo. Mas eis que Anselmo, insatisfeito, quer pôr à prova a virtude da esposa. Apresenta suas razões a Lotário, que assim se poderiam resumir: não há vantagem em Camila ser boa e virtuosa, se nada a induz a ser má. Daí deseja testá-la, para que se aperfeiçoe resistindo a atrevimentos.

Para a missão (i)moral, quer incumbir ninguém menos do que o seu próprio amigo, Lotário. Este naturalmente se indigna com a idéia, e tenta demovê-lo com a sua melhor retórica, com os seus melhores argumentos. Primeiro, Lotário põe em questão a própria identidade de Anselmo: o Anselmo que ele conhece não pediria o que pediu. Depois, põe em dúvida sua própria identidade, pois o Lotário que ele devia ser não está sendo reconhecido pelo amigo. Afirma que não só a vida e a honra do outro não estão em perigo, único caso em que se justificaria pedido tão detestável, como que Anselmo pede, na verdade, que lhe arranque justo a honra e a vida, obrigando a que Lotário perca igualmente sua honra e sua vida, na empreitada.

Anselmo não se convence e recorre a outro argumento, ou melhor, a uma chantagem: se Lotário se recusar, outro, desconhecido, se incumbirá da missão. Temeroso do que aconteceria a Camila e ao amigo, em especial se a história absurda se espalhasse, Lotário, a contragosto, aceita a tarefa, a despeito de toda a sua razão indignada. Assedia Camila.

Camila, de fato, resistiu por muito tempo; o tempo que levara Lotário a assediá-la, constrangido. Mas Lotário apaixonou-se primeiro, acreditando pouco a pouco na tarefa-engodo a ele confiada. Até que chegou a vez de Camila.

“Rindióse Camila, Camila se rindió” — é preciso enfatizar; enfatizar que não lhe deixavam alternativa. Os amantes se renderam, enfim; entregam-se um ao outro. Se antes os dois amigos enganavam Camila, agora os dois amantes precisam enganar Anselmo. Este chega a pedir ao outro que faça fingidos versos de amor para melhor seduzir sua esposa, o que é feito — mas com amor de verdade. Lotário escreve os versos, mas para mentir que estaria mentindo — “lembrando”, no futuro, os versos de Fernando Pessoa: “o poeta é um fingidor”...

Os versos de Lotário são declamados por ele quando se encontram os três juntos. Parecem bons a Camila, ainda melhores a Anselmo, reforçando que seria “demasiadamente cruel la dama que á tan claras verdades no correspondia”. Camila retruca, como que querendo acreditar:  “Luego todo aquello que los poetas enamorados dicen, ¿es verdad!”  [xvii] Lotário responde, completando sua definição de poeta — e de verdade: “En cuanto poetas, no la dicen; mas en cuanto enamorados, siempre quedan tan cortos, como verdaderos.”

Cortos, na sentença de Lotário, pode significar curtos, concisos, como pode significar curtos, limitados; a edição brasileira engloba as duas possibilidades, ao traduzir o passo por: “Como poetas não a dizem, mas como namorados nunca a chegam a dizer inteira”.

A qualidade da concisão caberia quer a poetas quer a namorados, então, se dela se poderia derivar outra qualidade, em qualquer outro discurso admitida como defeito: a da incompletude. Não cabe ao poeta dizer tudo; cabe, no máximo, sugerir tanto. Não cabe ao enamorado dizer tudo; cabe, se tanto, imaginar um muito. Lotário e Camila já entendiam isto, sem necessidade de demonstração; Anselmo não entendia nada, porque queria, desmedidamente, saber tudo. Lotário não entendia que a mentira, fabricada, torna-se uma verdade poderosa — ou perigosa.

Passaram-se meses de simulação e paixão; a paixão simulada dera lugar à paixão real que por sua vez deveria ser simulada, como se real não fosse. Até que Anselmo termina descobrindo a traição, inteiramente pertinente à sua impertinente curiosidade. Morrem, de desgosto e culpa, na estrada, na guerra e em um convento, pela ordem, Anselmo, Lotário e Camila.

“Lies breed lies” [xviii]; mentiras criam mentiras, neste caso se pode dizer. Mas lies breed truths, também se poderia dizer. As mentiras de Anselmo e Lotário criaram as verdades amorosas de Lotário e Camila. Na verdade, antes de Camila trair Anselmo, ele a traiu, ignominiosamente. Submetendo-a àquela prova sem o seu conhecimento e consentimento, traiu toda a confiança que ela nele teria depositado, sob o pretexto de conferir se ela seria, ou não, digna da confiança dele. Sua curiosidade não dizia respeito a como seria o caráter da esposa, mas a como seria este caráter se... Ora, então sua curiosidade pode-se dizer impertinente, porque ele procura controlar não só o que há mas o que pode haver, ou seja, procura controlar o próprio tempo. Anselmo arvora-se em querer conhecer não uma, mas todas as possibilidades de ação futura de Camila, como demiurgo supra-onisciente.[xix] O patetismo de Anselmo, entretanto, não o torna propriamente “mau” — torna-o, diriam os espanhóis, como nosotros:

¿ De qué vale la armonía amorosa si no la ponemos a prueba hasta el sabotaje, hasta la tranquilizadora desdicha? ¿ Cómo conformarse com lo que ya está ahí y encima parece que está bien? Incompatibles com la asfixia de la perfección, a cada uno nos toca demostrar que nada puede estar del todo conseguido. Y, desde luego, no lo está. Las circunstancias suelen declararlo suficientemente sin reclamar colaboración alguna de los particulares. Los felices somos quienes hemos gozado de la alta ocasión de hacernos desdichados por nuestro propio esfuerzo. Nuestro santo patrono es el protagonista de El curioso impertinente de Cervantes. [xx]

De que vale a harmonia amorosa se não a colocamos à prova no limite da desgraça que tranqüiliza? A perfeição é asfixia; a cada um toca demonstrar que nada pode estar conseguido de uma vez para sempre. Felizes são aqueles que puderam fazer-se desgraçados por seu próprio esforço — são aqueles que têm como santo padroeiro exatamente Anselmo, o protagonista de El curioso impertinente.

 

 

 

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notas

 

[i]  Este artigo faz uma espécie de condensação da tese de doutorado do autor.

[ii] Laruelle, IO, 131-2.

[iii] Pessoti, CMA, 15.

[iv] Savater, IE, 123-4.

[v]  Sibony, DA, 22.

[vi] Apud Freire Costa, EEC, 18/20.

[vii] Savater, EF, 156.

[viii] Nietzsche, ABM, 39.

[ix]  Unamuno, STV, 384-5.

[x]   Proposição atribuída, segundo Paulo Rónai, ora ao alquimista Paracelso (1493-1541), ora ao núncio apostólico Caraffa, mais tarde Papa Paulo IV (V 1559),— conferir Não perca o seu latim, p.113.

[xi]   Burke, LEL, 944.

[xii]  Gaarder, MS, 393.

[xiii]  Rodrigues, TC1, 100.

[xiv]  Rodrigues, TC1, 56.

[xv]   Rodrigues, TC1, 68.

[xvi]  Rodrigues, TC1, 96.

[xvii]  Cervantes, DQM-I, 332.

[xviii]  Wardropper, PCI, 600.

[xix]    Hahn, CI, 131-5.

[xx]    Savater, DV, 34.