DUBITO ERGO SUM

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O QUE NÃO SE SABE

Gustavo Bernardo

 

 

Texto publicado em 1994 nos 
Cadernos do Mestrado
 
do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ.

 

 

O que não se sabe;  justo o que se quer firmar aqui.

“O cônego ou metafísica do estilo”: neste conto, de Machado de Assis, encomenda-se um sermão a Matias, pregador efetivo, na cabeça do qual surpreendem-se um substantivo e um adjetivo procurando um ao outro para, aparentemente, abrilhantar aquele sermão - mas não, revela-se que: eles se procuram porque e para se procurarem, de modo a realizarem a contradescoberta da história: um idílio psíquico. Tão somente um idílio psíquico: destinam-se, e não mais.

Sílvio é ele; ela é Sílvia. Procuram-se, em caminho o mais das vezes escuro, onde justo pulula a vida sem formas (e sem fôrmas, enquanto eles não se encontrarem), arrastando narrador, leitora e leitor a vasto mundo incógnito, rompendo por entre embriões e ruínas. Aproximam-se. Quanto mais próximos um do outro, mais se amam, ou, o que leva ao mesmo, mais se procuram.

Por fim, acham-se. Acharam-se.

“Nisto, o cônego estremece. O rosto ilumina-se-lhe. A pena, cheia de comoção e respeito, completa o substantivo com o adjetivo. Sílvia caminhará agora ao pé de Sílvio, no sermão que o cônego vai pregar um dia destes, e irão juntinhos ao prelo, se ele coligir os seus escritos, o que não se sabe.” [i]

O conto termina afirmando a pergunta de toda literatura, de toda leitura: o que é isto que não se sabe? Com semelhante pergunta afirmada, confirmada, se presente para onde quer que se dirijam os meus olhos na estante, posso escrever vinte, duzentas, ou duas mil laudas, ad infinitum - (prefiram-se, então, apenas para minimizar os riscos de besteira, seleções estritas e a opção pelas vinte laudas - pouco menos, talvez).

Besteira é, de certas formas, conceito relativamente importante. O narrador de "O cônego" desde o princípio de tudo sabe. Sabe que o paradoxo que defende despirá as asas para vestir a japona de uma verdade comum por volta de 2222; sabe o que se passa, nos mínimos detalhes, no íntimo da cabeça do personagem enquanto este redige seu sermão; sabe quando Sílvia encontra Sílvio; sabe de tudo, porém não sabe se o cônego coligirá os seus escritos para levá-los (tanto escritos, quanto adjetivo enamoradamente unido a substantivo) ao prelo.

Besteira, portanto, será a do leitor se acreditar piamente na sapiência do narrador. Desde o princípio ele só sabe que de nada sabe, expandindo a ironia imanente à fórmula paradoxal atribuída a Sócrates. O ano de 2222, para um texto pela primeira vez publicado em 1896, é o próprio ano-nenhum, popular dia-de-são-nunca, apontando como, se os paradoxos nos libertam da leitura em linha reta, entre dois antolhos e três ou quatro zurros, também não nos levam algures ou alhures; apenas nos põem, na melhor das hipóteses, ensimesmados - literalmente.

Brincando um pouco menos, que a coisa é séria: os paradoxos e os não-saberes, os que não se sabem, nos põem, para além de ensimes­mados, responsáveis. Responsáveis, por exemplo, pelo fenômeno que se realiza no instante do texto-quando-lido, desde que constrói-se sobre o que se construíra, palimpsesto inverso, deslindado camada a camada, cada uma delas absolutamente nova, na contramão das teorias meca­nicistas da comunicação.

Por isto, porque responsabiliza, a coisa, a literatura, é séria.

Deste modo, faz-se igualmente besteira desconfiar, sectariamente, da sapiência do autor, que desenha a si tão mais implícito, vale dizer, não-dito, quanto mais põe seus narradores tão deveras explícitos. Este autor presentifica-se no corpo textual não só nos créditos, no copyright, mas também e principalmente no gesto tão perverso e irônico quanto político e libertário (o termo não é bom, mas, por enquanto, seja) de delegar autoria ao leitor a cada vazio indeterminado, deixando-o em legítimos palpos de aranha com tanta responsabilidade - ou seja, toda.

A responsabilidade, esta, impõe, mais do que põe, desejo.

“Sentimos muito bem que nossa sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo que ele pode fazer é dar-nos desejos. Estes desejos, ele não pode despertar em nós senão fazendo-nos contemplar a beleza suprema à qual o último esforço de sua arte lhe permitiu chegar. Mas por uma lei singular e, aliás, providencial da ótica dos espíritos (lei que talvez signifique que não podemos receber a verdade de ninguém e que devemos criá-la nós mesmos), o que é o fim de sua sabedoria não nos aparece senão como começo da nossa, de sorte que é no momento em que eles nos disseram tudo que podiam nos dizer que fazem nascer em nós o sentimento de que ainda nada nos disseram.” [ii]

Disso, a lei, que destaco: não podemos receber a verdade de ninguém; a verdade, devemos criá-la nós mesmos. Por esta lei, a experiência de leitura mostra-se exigente.

Exige a assunção da liberdade, não como dádiva ou pomba branca que abra suas asas sobre nós, sim como um sim - às responsa­bilidades conseqüentes. Não paire dúvida, entretanto; isto significa exatamente o oposto da assertiva rasteira que se reza a favor da liberdade, quando se a admite desde que com responsabilidade, se aqui se põe, bem ao contrário, aquela como pré-condição desta.

A liberdade é primeira e, sem paradoxos, imposta. A responsabilidade é segunda, logo conseqüência: irrecusável, ainda quando escamoteada.

A maneira pela qual o leitor experiencia o texto, este, como que reflete sua própria disposição, e neste aspecto o texto literário age como uma espécie de espelho. Mas, ao mesmo tempo, a realidade que semelhante processo ajuda a criar é tal que se dará diferente daquela disposição, dispondo o mundo, totalidade aberta de sínteses inexauríveis, no dizer de Merleau-Ponty, como um outro de que participamos, como um outro que abraçamos e que nos abraça, como um outro, enfim, que somos nós: responsáveis - then, the mirror creates. [iii]

O espelho, este, cria no leitor a capacidade, ou habilidade, de absorver experiências não familiares, inusitadas, dentro do mundo pessoal, no seio mesmo das nossas famílias de expectativas.

“Since it is we ourselves who establish the levels of interpretation and switch from one to another as we conduct our balancing operation, we ourselves impart to the text the dynamic lifelikeness which, in turn, enables us to absorb an unfamiliar experience into our personal world. [..] These are the ways in which reading literature gives us the chance to formulate the unformulated.” [iv]

A oportunidade de formular o informulado; não de saber, mas de poder dizer, como que tocando na sua franja, o que não se sabe; esta oportunidade, o leitor a recebe não só da literatura, mas principalmente do movimento de sua própria leitura.

Seriam os vazios constitutivos ao texto literário as condições de possibilidade para a participação do leitor na realização do texto, escrevendo-o e escrevendo-se a posteriori. E esta participação não implica que o leitor deva internalizar as posições manifestas no texto, ou deva delas discordar, mas sim que dele se exige: fazer agir o texto, junto.[v]

Porque o texto é quer a marca de um outro como ele mesmo é um outro; o experimentamos como o fazemos com todos os outros, homens, mulheres, mundos. Temos experiência do outro se conhecemos sua conduta, mas não podemos ter experiência de como os outros nos experimentam.

Quando Laing pode dizer, a experiência é a invisibilidade do homem para o homem; o que reciprocamente não se dá e não se troca, constitui no entanto a própria base das chamadas relações interpessoais, base esta que se pode chamar: no-thing; nonada.[vi]

O entre seria, em si mesmo, nonada.

O quase aponta, como o canto do pássaro invisível na árvore indeterminada, para lá mesmo: nonada.

“A meia altura de uma árvore indeterminada, um pássaro invisível empenhava-se em que fosse breve o dia, explorando com uma nota prolongada a solidão circundante, mas recebia desta uma réplica tão unânime, um contragolpe tão reduplicado de silêncio e imobilidade que dir-se-ia que ele acabava de parar para sempre o instante que procurava fazer passar mais depressa.” [vii]

Nem muito alto; nem muito baixo. À meia altura. Como se, quase ao alcance. Tem de ser quase. A árvore, por sua vez, não se pode determinar - pois não se trata de um ser vivo, antes pouso do pássaro, antes obstáculo do narrado: evento; acontecimento.

Pássaro. Precisa-se invisível, sem cores, sem asas. Na página apenas o canto prolongado, ou melhor: o empenho prolongado. Empenhar-se em que seja breve, brevíssimo, o dia. Mas como?

Explorando a própria invisibilidade; explorando algo como o seu nada; levantando o espelho côncavo da solidão que, por sua vez, faça divergir a luz na direção igualmente indeterminada daquilo que contém, sustém, sustenta, sim, mas engolfa, também: o texto.

Da solidão, a réplica. Apenas contragolpe, reduplicando silêncio e imobilidade. Assim o instante, que pára para sempre. O desejo do nar­rador, em busca do tempo perdido, quase se realiza: dá-se a meio caminho do homem e do menino, entre a solidão e a saciedade, entre o amor e o desespero sem gestos, ou: - a família.

No caminho de Swann, no caminho de um nome perseguido dentro de parques, pressupondo-se ausências (tantas). Preencher é preciso. Preencher é impossível. Caminhar é preciso; caminhar é igualmente impossível, se o que se quer for encontrar, exatamente, o caminho, o meu caminho, se me entendem.

Na verdade, não é fácil entender-me, entender a ficção caleidoscópica deste eu, quer teórico, quer narrador; quer personagem, quer persona. No máximo, pode-se aproximar o substantivo do adjetivo que lhe teria sido destinado, como fez (achou-se que fez) o cônego do conto de Machado de Assis. Assim, não vemos o outro que vemos. [viii]

“Silêncio:
as cigarras escutam
o canto das rochas” [ix]

Eis como.

Sabe-se do canto das cigarras, embora ainda um pouco de espanto: com a morte das cigarras ao fim de seu canto. Mas não se sabe do canto das rochas. As cigarras talvez o saibam, no haiku de Bashô; mas o que é este saber?

Seu silêncio.

Sabe-se que a voz do mar se encontra nas conchas que se encontram desabitadas na areia das praias; alguns continuam escutando esta voz, este rumor de ondas e/ou do eterno, mesmo quando carregam a concha para o alto da serra (ou do prédio). Faz sentido? Há explicação, digamos, científica, para o fenômeno? Mera sugestão? Ou, mera construção - memória afetiva que se permite decidir um som, uma imagem - um silêncio?

Eu não sei. É bem o que eu não sei. Porque sempre quando se me dá silêncio, acontece é que escuto tantos sons que não conseguia ou não podia escutar. Ensurdecemo-nos de propósito para sobreviver, por tanto nos espantamos: com a miríade de cantos contidos no silêncio, no que se nos dá raro. O canto das rochas, pode ser?

Mas não sou uma cigarra. Ainda não cantei antes de morrer.

“Narciso e biombo
Um o outro ilumina
Branco no branco” [x]

A primeira pessoa do singular, no romance, na monografia, é sem dúvida narcísica; mas, antes de vê-la como exibida, ver-se-á hipótese-de-eu, não mais que isto.

Narciso não será apenas um bobão com uma melancia pendurada na orelha, à guisa de brinco; narciso pede-se além, imagem da imagem, devidamente minúsculo, propriamente o que não se sabe: aqui desespero, ali instante de paz.

Narciso e biombo: exibir(-se) para esconder; ou, esconder(-se) para exibir. A verdade que aparece não transparece; assim, o personagem. Os personagens que construímos diuturnamente, em volta de um corpo e à volta de um nome - os nossos. Os personagens que construímos em volta e à volta dos personagens presentes nos romances que lemos, preenchendo-os, preenchendo-nos, assim como um balde cheio de água à meia-altura preenche um copo vazio ao rés do chão: transborda, transborda-nos, muito antes que se e nos preencha.

Deve ser isso o canto das rochas, ou o canto das conchas de mar no alto da serra; escutar, na absoluta incerteza de estar escutando, do que se está escutando.

Branco no branco: quando as linhas se indefinem. Quando, no palco, os atores são vistos pelo público como reais, graças ao jogo de luzes, mas não podem ver os espectadores a não ser como sombras, não podem ver seus parceiros no palco a não ser como spots coloridos e ofuscantes que falam e gesticulam, luz branca contra luz branca e o ser humano assume-se apenas o que se pode assumir: uma fala; um gesto; muito raramente, um certo brilho.

Branco no branco: quando as linhas se indefinem e, só então, se dão.

“Ao contrário dessa multidão de ignorantes que cuidam desenhar correctamente só porque dão um traço sem que lhes trema a mão, não marquei os rebordos da minha figura, mas fi-los ressaltar até ao mais ínfimo pormenor anatómico, porque o corpo humano não acaba em linhas. Nisso, os escultores estão mais próximos da verdade do que nós, já que a natureza compreende uma série de formas redondas que se encaixam umas nas outras. Para falar com rigor, o desenho não existe! Não rias, moço! Por mais singular que te pareça, lá chegará o dia em que compreenderás o que te estou a dizer: a linha é o meio pelo qual o homem se dá conta do efeito da luz sobre os objectos; mas, não há linhas na natureza, como não há vazios, tudo está cheio, está pejado, e é modelando que se desenha, quer dizer: que arrancamos as coisas do meio onde se encontram. Só a distribuição da luz dá a aparência ao corpo!” [xi]

O Mestre afirmava que algum dia isto seria compreendido, à semelhança do narrador profético d'O cônego; ambos o disseram, porque Machado e Balzac os fizeram dizer, no século XIX, antes portanto da mecânica quântica, das teorias da relatividade e da psicanálise. Mas lê-los hoje implica escutar e, mais que entender, fabricar suas ironia e irritação, para dialogar e confrontar com nossos preconceitos perceptivos - que, aliás, se agarram feroz e burguesamente aos medos, às certezas e às besteiras do século XIX.

Para falar com rigor, o desenho não existe; para falar com rigor, a literatura não existe, e somente percebendo desta forma posso fazer meu o seu sentido, quando alguma função se lhe dá.

“Trinta raios convergem ao cubo da roda.
É no espaço que há na origem deles
que está a eficiência da roda.

Molda-se o barro para fazer o vaso.
É o oco interno
que dá a utilidade ao vaso.

Portas e janelas são talhadas para se fazer um quarto.
É no vazio
que reside a finalidade do quarto.
Valorizamos o ser,
mas sua utilidade está no não-ser.” [xii]

A utilidade se encontra no vazio pleno de Iser, se podemos ligar oriente e ocidente [xiii], passado longínquo com passado próximo, por meio destas espécies de oco do ser. Preencher é preciso, preencher é impossível, preencher é o que se nos pode oferecer de sensível. A responsabilidade.

A memória.

Beckett lembra que Proust tinha má memória - sua vantagem, nossa sorte. Porque tinha má memória, precisou-se buscando o tempo perdido, fabricando o tempo para sempre perdido, perdição que o obrigou a construi-lo, que lhe permitiu assumir talvez a maior das responsabilidades humanas: lembrar.

Ou melhor: fazer o lembrar. Porque o homem de boa memória, que nunca se esquece de nada, também nunca se lembra de nada. Sua memória, uniforme, arquiva pontos de referência mas apaga todos os traços sensíveis, justo para melhor organizar o arquivo. Esta memória revela-se instrumento de referência, não instrumento de descoberta.[xiv]

Não se pode lembrar do ontem, como não se pode lembrar do amanhã. Pode-se apenas contemplar o dia de ontem se ele estiver pendurado para secar no varal do hábito, denegados todo interesse e toda curiosidade. Tais curiosidade e interesse estariam presentes no ontem recordado, diríamos melhor, recortado, tanto quanto no hoje que busca e recorta, assim como no vasto vazio que percorre o espaço e o tempo entre o ontem e o hoje.

“Uma vez em casa, punha-me a pensar em outra coisa, e assim iam se acumulando em meu espírito (como em meu quarto as flores que colhera durante os passeios ou os objetos que ganhara de presente) uma pedra onde brincava um reflexo, um telhado, um som de sino, um cheiro de folhas, imagens inúmeras e diversas debaixo das quais há muito tempo jaz morta a pressentida realidade, que me faltou vontade suficiente para descobrir. [..] E exatamente porque eu acreditava nas coisas, nos seres, quando percorria aqueles caminhos, é que as coisas e os seres que eles me deram a conhecer são os únicos que ainda tomo a sério e ainda me proporcionam alegria. Ou porque a fé que cria se haja estan­cado em mim, ou porque a realidade só se forme na memória, as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem flores de verdade.” [xv]

As flores de verdade teriam alma. E esta alma não é um conceito vago. A alma das coisas, todas as coisas, incluindo os seres que se podem dizer vivos, é um vazio que veste uma roupa tecida pela agulha do interesse com as linhas multicoloridas e algo embaraçadas das sensações. A alma das coisas só pode ser estética, etimologicamente falando.

A alma é, propriamente, o que não se sabe.

“[..], e me ajudavam a melhor compreender a contradição que existe em procurar na realidade os quadros da memória, aos quais faltaria sempre o encanto que lhes vem da própria memória e de não serem percebidos pelos sentidos. A realidade que eu conhecera não mais existia. Bastava que a srª Swann não chegasse exatamente igual e no mesmo momento que antes, para que a avenida fosse outra. Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos.” [xvi]

A alma é, propriamente, o que não se agarra; o que escapa, o que foge. Desta forma, o que se constrói, o que se escreve, sem parar, babelicamente.

Quem tu és, por exemplo; não és o mesmo, idêntico para toda a gente. Nossa personalidade social seria bem uma criação do pensamento alheio. Ver uma pessoa, ainda que conhecida, é ato em parte intelectual, desde que enchemos a aparência física do ser com todas as noções que fizemos a seu respeito. Tais noções contribuem decisivamente para arredondar-lhe as faces, para nuançar-lhe a sonoridade da voz. A cada vez que o encontramos, são essas noções que olhamos e escutamos. [xvii]

Assim toda pessoa nos parecerá um texto, com vazios necessários que se devem necessariamente preencher, sem que se os possa jamais encher: são os copos de água sob os enormes baldes do nosso, será mesmo nosso (sempre-dúvida), desejo. Pode-se deduzir, neste momento, que todo texto então nos deverá parecer um ser, no coração do qual pulse uma alma tão plural quanto os eventos de leitura que o teriam, ou que o terão constituído.

O amor, pois sim; resumo de todos os desejos e interesses, sensações e sentimentos, devida e mutuamente contraditórios, nasceria detrás do outro.

“Pois julgar que uma criatura participa de uma existência desconhecida em que seu amor nos faria penetrar é, de tudo o que exige o amor para nascer, aquilo a que ele mais se prende e que o faz desdenhar do resto. Até as mulheres que pretendem só avaliar um homem pelo físico, vêem nesse físico a emanação de uma vida especial. Eis porque elas amam os militares, os bombeiros; o uniforme as torna menos exigentes para o resto; julgam que beijam, atrás da couraça, um coração diferente, aventureiro e terno.” [xviii]

A reflexão de Proust é prosaica, fácil de comparar com nossas histórias suburbanas, em que normalistas se apaixonavam por formandos do Colégio Militar, ou por cadetes da Escola Naval, bem como vice-versa, e não desmerece as mulheres. Não desmerecerá os personagens masculinos de Proust. Os amores de Swann, no seu caminho, e os primeiros amores do narrador, é que confirmam os desdobramentos da tese.

Swann facilmente se convencia de que a cortesã Odette não seria mesmo o seu tipo, se parava para pensar nisso e nela, chegando a achá-la feia. Considerava-se sincero, correto consigo mesmo, mas: per­sistia dolorosamente apaixonado. Talvez porque o seu amor se estendesse muito além das regiões do desejo físico; talvez porque a própria pessoa de Odette não ocupasse nele lugar considerável. Olhando o seu retrato sobre a mesa, mal identificava a figura de carne ou de cartão com a dolorosa e constante perturbação que o habitava. [xix]

Psicanalisar Swann, inquirindo prováveis masoquismo e/ou pulsão de morte, pode ser perigosa besteira, na medida em que se comece a análise com sabe-se que..., justo sobre o que não se sabe e não se pode saber, ainda que se possa, e é o que se tenta aqui, formular um e outro limites para o informulado.

Compreender, ou não compreender, o amor de Swann, ou a a obra que nos põe No caminho de Swann, implica considerá-los objetos reais, dados, e não objetos intencionais, para retomar os conceitos de Ingarden e Iser. Amor e obra seriam objetos intencionais porque dependem da intenção móvel, mutável, de todos os que com eles se envolvam. Logo, a questão não é essa.

A questão, recorrente, insistente, espiral: tocar na franja do que não se saiba. Até para melhor não saber, se for possível entender isto.

Se for possível entender o amor do narrador: pré-existe ao objeto, a qualquer outra, como incerta imagem à espera de um nome proferido em preciso instante e lugar.

“Assim passou junto a mim esse nome de Gilberte, oferecido como um talismã que me permitiria talvez reencontrar um dia aquela de quem ele acabava de fazer uma pessoa e que, um momento antes, não era mais do que uma incerta imagem.” [xx]

O nome certo para a incerta imagem; mas, depois, outros nomes igualmente certos, para a mesma imagem igualmente incerta, cumulando-se da memória que indistingue cenas de sonhos das cenas do pretenso cotidiano que tiver se passado - sempre alhures, entretanto.

Tocar nessa franja, deste entre, me parece o risco necessário, diria, felizmente necessário. O perigo não reside no falar do que não se sabe, se isto, ao menos, se souber. O perigo reside em calafetar os vazios não formulados, os vazios que se precisam e que se nos oferecem indeterminados - com nomes.  

 

“Quando as instituições são criadas, nascem os nomes.
Tendo surgido nomes,
o homem precisa saber onde parar.
Saber quando parar é antecipar-se ao perigo.” [xxi]

 

O que não é fácil: o que não se sabe.

Um pássaro; persista indefinido: invisível. Uma árvore; persista indeterminada. Até porque, não há como. A réplica da solidão; persista unânime; insista-se imóvel. O instante; pare para sempre (por favor).

A despeito, cantar, o mais prolongado possível: para que o instante passe mais depressa, mais depressa, ...

..., mais depressa...

 

BIBLIOGRAFIA

BALZAC, Honoré de. Uma paixão no deserto & A obra-prima desconhecida. Tradução de Jorge Reis. Lisboa, Difel, sd.

BASHÔ, Matsuo. O gosto solitário do orvalho. Versões de Jorge de Souza Braga. Lisboa, Assírio & Alvim, 1986.

BECKETT, Samuel. Proust. Tradução de Arthur Nestrovski. Porto Alegre, L&PM, 1986.

COSTA LIMA, Luiz [seleção e tradução]. A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

ISER, Wolfgang. The implied reader: patterns of communication in prose fiction from Bunyan to Beckett. Translated by David Henry Wilson. Baltimore and London, The John Hopkins University Press, 1987.

LAING, Ronald David. Laços. Tradução de Mário Pontes. Petrópolis: Vozes, 1974.

LAO TSÉ. Tao te king. Tradução de Pedro Tornaghi. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Várias histórias. Rio de Janeiro / Belo Horizonte: Livraria Garnier, 1989.

PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Tradução de Mário Quintana. São Paulo: Globo, 1991.

---. Sobre a leitura. Tradução de Carlos Vogt. Campinas: Pontes, 1989.

 

NOTAS

[i]    Machado de Assis, Várias histórias, p.147.

[ii]    Proust, Sobre a leitura, p.30-1.

[iii]    Iser, The implied reader, p.281: “The manner in which the reader experiences the text will reflect his own disposition, and in this respect the literary text acts as a kind of mirror, but at the same time, the reality which this process helps to create is one that will be different from his own (since, normally, we tend to be bored by texts that present us with things we already know perfectly well ourselves)”.

[iv]    Iser, The implied reader, p.288/294.

[v]    Wolfgang Iser, em A literatura e o leitor, p.131.

[vi]    R.D.Laing, em A literatura e o leitor, p.86.

[vii]    Proust, No caminho de Swann, p.136.

[viii]    Marcel Proust, citado por Beckett em Proust, p.46: “Imaginamos que o objeto de nosso desejo é uma criatura exposta à nossa frente e limitada por um corpo. Mas, para nossa desgraça, ele é a extensão a todos os pontos do espaço e do tempo que aquela criatura já ocupou e um dia ocupará. Se não estabelecemos contato com determinado local e determinada hora, aquele ser não nos pertence. Mas não podemos tocar todos os pontos. [..] Um ser espalhado no tempo e no espaço não é mais uma mulher, mas uma série de eventos que somos incapazes de iluminar, uma série de problemas de impossível solução, um oceano que, como Xerxes, castigamos com varas, em nosso desejo absurdo de puni-lo por ter engolfado nosso tesouro”.

[ix]    Bashô, O gosto solitário do orvalho, p.38.

[x]    Bashô, O gosto solitário do orvalho, p.39.

[xi]    Balzac, A obra-prima desconhecida, p.52; conferir, ainda, com cuidado e tempo, a adaptação para o cinema deste conto, no filme de Jacques Rivette, La Belle Noiseuse, traduzido no Brasil como A Bela Intrigante.

[xii]    Lao Tsé, Tao te king, p.11.

[xiii]    Aqui, João Cezar me lembra, muito a propósito, da diferença entre o vazio pleno de Iser para o vazio oriental, para o vazio do Tao. Enquanto este como que persegue uma total passividade capaz de provocar o salto para um máximo de atividade, melhor dizendo, de intensidade, aquele se mostra estímulo a uma profunda atividade do leitor. A diferença, então, não implica oposição. Faria sentido a heterodoxa aproximação, embora a princípio se possa estranhá-la.

[xiv]    Beckett, Proust, p.23.

[xv]    Proust, No caminho de Swann, p.176/181.

[xvi]    Proust, No caminho de Swann, p.409.

[xvii]    Proust, No caminho de Swann, p.24.

[xviii]    Proust, No caminho de Swann, p.101.

[xix]    Proust, No caminho de Swann, p.297.

[xx]    Proust, No caminho de Swann, p.140.

[xxi]    Lao Tsé, Tao te king, p.32.