DUBITO ERGO SUM

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CONSELHOS DO CONSELHEIRO

Gustavo Bernardo

 

Publicado em Revista Polêmica, nº 10, 2003.

   

Em Iaiá Garcia, o narrador de Machado de Assis se refere a um dos personagens centrais: “Assim vivia esse homem cético, austero e bom, alheio às coisas estranhas, quando a carta de 5 de outubro de 1866 veio chamá-lo ao drama que este livro pretende narrar” [em Castello: 106].

Para Machado de Assis, os três adjetivos – cético, austero e bom – reforçam-se uns aos outros.

Nem sempre a crítica concorda com o escritor. Seu ceticismo incomoda tanto que sempre se tenta neutralizá-lo. Diz-se que Machado de Assis é de fato o maior escritor brasileiro, mas apesar do seu ceticismo e da sua amargura. Sílvio Romero já chamava o ceticismo do escritor de “pessimismo de pacotilha” e a sua ironia de “humorismo de almanaque”.

O tempo mostrou a avaliação de Romero como equivocada, mas a dificuldade de lidar com o ceticismo de nosso “escritor maior” persiste, quando se supõe que Machado foi bom apesar de ter sido cético. Nessa linha, explica-se o ceticismo de Machado de Assis pela circunstância de não ter tido filhos, ou por ter sido epiléptico, ou ainda por ter sido mulato (subentende-se, ressentido).

Ora, essas explicações, no afã de desvalorizarem o ceticismo, empobrecem o autor. Suspeito que tais explicações é que sejam ressentidas. Assim como Astrojildo Pereira afirmou que Machado é tanto mais nacional quanto mais universal, suponho eu que Machado de Assis seja realmente um dos mais importantes escritores brasileiros precisamente por causa do seu ceticismo.

Nesse caso, precisamos observar melhor esse ceticismo.

O crítico americano Harold Bloom incluiu Machado de Assis entre os cem maiores talentos literários de todos os tempos, afirmando: “o gênio da ironia nos deu poucos equivalentes a esse afro-brasileiro Machado de Assis, que me parece ser o supremo artista literário negro até hoje”. Para ele, Machado de Assis “é uma espécie de milagre”. A originalidade de Machado confirma o próprio conceito de gênio, que é um produto de seu tempo e lugar, mas sobretudo uma exceção em seu tempo e lugar. Bloom, no livro Genius – a mosaic of one hundred exemplary creative minds, lançado pela Warner Books, vê em Machado liberdade tanto em relação a suas dívidas literárias quanto a seu contexto nacional, liberdade esta que adviria da combinação precisa de ceticismo e humor.

Vejamos essa combinação olhando um pouco para o personagem que provavelmente melhor representou o próprio autor: o Conselheiro Aires.

Em Esaú e Jacó, sabe-se que Aires foi viúvo, mas casara apenas por necessidade do ofício de diplomata. Viveu com a mulher como se vivesse só; quando ela morreu não se afligiu com a perda, porque “tinha o feitio do solteirão” [Machado de Assis1: 45].

Por isso, ele podia observar melhor o drama de Natividade.

Natividade, mãe dos gêmeos Pedro e Paulo, sofre com a discórdia entre os filhos. Eles brigam desde o ventre materno: na juventude um defendia a Monarquia, outro a República. Depois da proclamação da República, se colocam novamente em campos separados. Pedro, que fora monarquista, aceita o novo regime, mas Paulo, ardoroso republicano, surpreendentemente bandeia-se para a oposição, decidindo que aquela não é a República dos seus sonhos.

Essa história não nos parece familiar? Não lembra bem de perto os políticos de certo partido de esquerda que, ao chegarem finalmente ao poder, decepcionam-se consigo mesmos e bandeiam-se, em pouquíssimo tempo, para a oposição? Ao explicar o estranho comportamento de Pedro e Paulo, talvez o Conselheiro Aires nos ajude a entender o recente dilema dos deputados de nossa história recente.

Por que os gêmeos alteram as suas posições, mudando de opinião? É o que a mãe pergunta ao Conselheiro. O amigo demora a responder. Ao fim de minutos arrisca, em voz baixa: “a razão parece-me ser que o espírito de inquietação reside em Paulo, e o de conservação em Pedro. Um já se contenta do que está, outro acha que é pouco e pouquíssimo, e quisera ir ao ponto em que não foram homens” [Machado de Assis1: 227].

Entretanto, ele ressalva que tanto pode ser isso quanto outra coisa. Entre os pecados de Aires não se encontra o pecado da opinião. O Conselheiro não se incomoda de estar certo ou não o estar, porque não lhe importa ser ou não aceito. Responde às perguntas que lhe fazem apenas por gentileza, sem identificar-se completamente com o que diz.

Natividade aceita a sua explicação mas não se acalma: a discórdia prossegue entre os seus filhos, que apenas trocam de armas para continuar o mesmo duelo. Aires concorda, mas chama a atenção da amiga para a cor do céu, que é a mesma antes e depois da chuva. A mãe dos gêmeos procura o simbolismo oculto na imagem do amigo, mas não o encontra. Talvez ele esteja lhe pedindo para olhar para cima, ou seja, para ampliar sua perspectiva.

O Conselheiro Aires a aconselha a ter confiança: “conte com as circunstâncias, que também são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma espécie de deus avulso, ao qual é preciso dar algumas ações de graças; pode ter voto decisivo na assembléia dos acontecimentos” [Machado de Assis1: 228].

O conselho é estranho, porque não ajuda muito. À primeira vista, parece dizer apenas: relaxe. Ou: o que tem de ser, será. Ou ainda: é preciso dar tempo ao tempo. Porque os conselhos de um cético não podem ser bons conselhos, se ele não tem verdades a defender, a pregar ou a distribuir. Na verdade, o ceticismo de Aires é o que lhe empresta o atributo de conselheiro. Ele escuta mais do que fala, e quando fala sugere que o interlocutor siga... a si mesmo.

Em Esaú e Jacó, assim o narrador descreve seu personagem: “tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia” [Machado de Assis1: 45]. Aires pesa criteriosamente todas as opiniões e encontra em todas mais ou menos o mesmo valor. Poderia ser seu o ditado: “todo mundo tem razão – alguma”. Chega a tolerar o intolerável: “a diplomacia me ensinou a aturar com paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus propósitos secretos” [Machado de Assis2: 124].

Se o acusam de incrédulo, rebate dizendo que, ao contrário, “sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo” [Machado de Assis1: 88]. Tende a concordar sempre com o interlocutor, inclusive quando o refutam. Não o faz por desdém da pessoa mas sim para não dissentir nem brigar: “tinha observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto à gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar à sua um aspecto abominável” [Machado de Assis1: 182].

Aires suspeita de que as palavras nos falam antes de as falarmos. No Memorial, publicado no ano da morte do escritor, o personagem comenta como as suas leituras se anulam e se completam ao mesmo tempo. Ao reler Shelley e Thackeray, percebia: “um consolou-me de outro, este desenganou-me daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito aprende as línguas do espírito” [Machado de Assis2: 23].

O Conselheiro pede que o papel não recolha tudo o que a pena vadia for escrevendo (as palavras podem trai-lo), se esquive da mesa e fuja pela janela aberta, porque verdade se pode tornar mentira e vice-versa [Machado de Assis2: 44]. O acaso, outro nome do deus avulso a que chama de “imprevisto”, mostra-se corregedor de mentiras: “um homem que começa mentindo disfarçada ou descaradamente acaba muita vez exato e sincero” [Machado de Assis2: 51].

Os críticos do ceticismo como postura criticariam aqui o Conselheiro, supondo-o apenas como um conservador, na melhor das hipóteses – na pior delas, ele seria mesmo um reacionário. E tanto a criatura se parece com o criador que muitos, como Lima Barreto, fizeram estas mesmas críticas ao próprio escritor. A “defesa” do escritor (como se ele precisasse) será objeto de outro trabalho, mas por ora cabe apenas lembrar: incomodava ao Conselheiro todos aqueles que “tinham” uma opinião e, portanto, encontravam-se perfeitamente seguros de que “tinham” razão.

Ora, razão não se “tem”; razão se usa (ou não). Quando a razão se torna uma coisa, isto é, quando a razão se reifica, encontramo-nos na beira do dogmatismo – logo, na beira do abismo da intolerância e do fanatismo.

Mas há muitos críticos que recorrem ao próprio Machado para combater o seu presumido ceticismo, e assim desvalorizarem qualquer tipo de ceticismo. Para tanto, citam uma de suas últimas crônicas, datada de 28 de fevereiro de 1897, na qual ele parece querer se afastar do ceticismo [em Castello: 70]:

Não achareis linha cética nestas minhas conversações dominicais. Se destes com alguma que se possa dizer pessimista, adverte que nada há mais oposto ao ceticismo. Achar que uma coisa é ruim, não é duvidar dela, mas afirmá-la. O verdadeiro cético não crê, como o dr. Pangloss, que os narizes se fizeram para os óculos, nem, como eu, que os óculos é que se fizeram para os narizes; o cético verdadeiro descrê de uns e de outros. Que economia de vidros e de defluxos, se eu pudesse ter esta opinião!

Mas apenas parece; trata-se de mais uma ironia. O escritor corretamente distingue o ceticismo do pessimismo (que seria uma variante negativa do dogmatismo) sugerindo que, no final da vida, se tem mostrado pessimista. Mas o Memorial de Aires, livro inteiramente dedicado ao Conselheiro e suas reflexões, é o último romance de Machado de Assis – e, comparativamente, é o menos pessimista de todos os seus romances.

Enquanto o otimista acha que os narizes se fizeram para os óculos (estamos no melhor dos mundos, ou, o que dá no mesmo, o mundo rima conosco e com nossas vontades) o pessimista entende que os óculos é que se fizeram para os narizes (estamos no pior mundo possível, onde os óculos não se encaixam nos narizes mas têm de ser usados assim mesmo).

Entretanto, como o senso comum costuma ver no cético alguém que tudo vê com tintas negativas, Machado dá uma rasteira no leitor ao colocar-se ele mesmo como pessimista, o cético sendo outra coisa: alguém que suspende suas crenças, não se afigurando nem pessimista nem otimista. Todavia, no meu entender o suposto e assumido pessimismo do escritor não passa de um truque retórico, ou seja, de outra bela ironia: seu olhar sobre narradores, personagens e leitores é antes de tudo compassivo. Ele não é nem pessimista nem otimista (nem realista, diga-se de passagem).

A frase final, “se eu pudesse ter esta opinião!”, deixa claro que Machado gostaria de ser cético – como se não o fosse. Como se ele não suspeitasse de todas as opiniões, apesar de (ou exatamente por) considerá-las mais necessárias do que a realidade: “se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente” [Machado de Assis3: 125].

Desse modo, o escritor defende-se da provável acusação de ceticismo respondendo: quem me dera...

Quem nos dera possamos permitir que o Conselheiro Aires nos ensine a suspender nosso juízo e nosso assentimento de modo a que a nossa razão não seja “nossa”, ou seja, de modo a que a nossa razão não seja uma coisa.

Razão não se tem; razão se usa.  

 

 

Referências bibliográficas

CASTELLO, José Aderaldo. Realidade e ilusão em Machado de Assis. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.

MACHADO DE ASSIS1, Joaquim Maria. Esaú e Jacó. Belo Horizonte: Garnier, 1988.

______2. Memorial de Aires. Belo Horizonte: Garnier, 1988.

______3. Papéis avulsos. Belo Horizonte: Garnier, 1989.